tudo arrumadinho pra você voltar

Só queria dizer que acordei com vontade de te ligar, uma vontade enorme mesmo. Daquelas que me fazem desviar todos os meus assuntos pra você. Essas coisas bobas que só a gente entende. Deu saudade da sua risada, meio descompensada, mas aquela que me faz ter vontade rir mesmo que a piada seja péssima. Eu consegui terminar aquele projeto que tanto atrapalhava os nossos horários, aquele que me fazia perder o humor do meu dia e descontar tudo em você. Eu queria te ligar pra dizer que você pode dar uma passada aqui se quiser, almoçar comigo, juro que aprendi dessa vez a não deixar mais o arroz queimar e tem um chinelo bem do lado do sofá pra você poder tirar o salto e descansar o pé assim que você chegar.

Já joguei fora aquele tênis eu você odiava, prometo também não usar mais aquele agasalho velho que você queria atear fogo. Mas esse eu não vou jogar fora por ser o meu favorito. Mas vou respeitar a sua opinião enquanto você estiver aqui. Eu fui dormir na noite passada sozinho. Sentado na sala, com a televisão ligada naquele filme que a gente não se cansava de assistir. Só que o cobertor só cobria o meu corpo, tinha espaço suficiente pra você. Tinha espaço dentro do meu abraço e minha perna ficou ali sentido falta de como você repousava a sua por tanto tempo que chegava até formigar. Só que quando o filme é visto sem os teus olhos ao lado dos meus ele perde a graça. Parece que as cores já nem estão tão vibrantes e a trilha toca tão baixinha que eu quase não consigo ouvir.

Queria pedir desculpas, mas você sabe que eu não sei fazer essas coisas. Você me conhece e sabe que eu coloco orgulho dentro do meu prato, jogo duas colheres de farinha e almoço ele todo santo dia. O gosto é péssimo. Posso beber o que for com essa mistura que eu ainda sinto o amargor. E só você sabia como tirar esse sabor da minha língua. Aliás, você fazia isso de uma forma tão natural que eu ainda custo a acreditar que você se foi. Eu podia me deitar em qualquer posição, com a cabeça no seu colo que eu me encaixaria perfeitamente. Se você soubesse o desespero que eu sinto, toda vez que eu penso que nunca mais vou conseguir te dizer o quanto eu te quero bem, você vinha correndo e desamarrava todo esse nó que a sua falta faz no meu coração.

Lembro muito bem, como você dizia dos problemas das suas amigas, eu ouvia calado. Quase nunca te respondia, interrompia a maioria dos seus desabafos te agarrando forte pela cintura e tirando seus pés do chão. Você me abraçava e encostava sua testa na minha. A gente sorria. O sorriso mais gostoso do mundo. Das vozes que eu ouvia todos os dias, a sua era sempre a que me trazia paz. Seu sotaque reprimido, da menina que chegou à cidade e já se adaptou com a forma irritante e coloquial daqui. E você dizia que só queria viajar sem rumo pelo litoral, que ainda compraria as passagens das suas viagens só como ida. Seu olho brilhava a cada palavra que você falava da gente. Vejo todo mundo implorando pra ter uma felicidade igual a nossa, que me dói acreditar que você realmente desistiu de tudo tão fácil.

Eu sei de muita gente diferente que fez esse mundo melhor junto, gente assim, igualzinha à gente. Cheia de vontade de conhecer o mundo, que gosta de deitar a cabeça na grama pra apontar pras estrelas. Que bebe do mesmo copo e que gosta de desligar o telefone por já estar com a única pessoa que queria ouvir. Gente que diz ser feliz só que nunca sentiu aroma do seu perfume. Gente de bons ouvidos que nunca ouviram o seu sotaque. Gente que se diverte com o que tem. E eu tenho uma porrada de defeitos, mas que quando juntam com os seus, que nem são tantos assim, eles somem. Talvez isso seja sorte, é verdade. Ou talvez seja a gente se completando.

Então se por um minuto, você se olhar com os meus olhos e souber como é bom amar você. Bate aqui na minha porta?

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autor_jorge

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