Não sei ao certo, mas fazia tanto tempo que eu não voltava aqui pro alto da minha pedra só pra ficar olhando a paisagem e realinhando a minha vida. Não sei se era pelo fato de eu já ter aceitado que a minha vida seria uma bagunça assumida, ou então, por você ter aparecido sem eu ter chamado e ter colocado certa ordem nela.
Sentado aqui sozinho, acendendo (o que eu juro ser meu último) cigarro, encarando essa lua enorme e ouvindo a maré se chocar com as pedras. Tô rindo sozinho, pensando que se eu pudesse, gostaria de uma última vez segurar a sua mão e torcer pra vida não ser tão cruel assim com a nossa curta história. Tô te devendo um último dengo.
E digo isso talvez por um desespero bobo que ainda me faz querer te contar tudo que acontece comigo, mesmo sabendo que você não quer ouvir. Acho que cê ficaria feliz em saber que eu realmente consegui acabar o teu livro favorito, que me deu até vontade de escrever um. Tô planejando isso só pra você colocar na sua estante numa parte especial, onde todo mundo possa perguntar se é bom. Cê vai sorrir e balançar a cabeça positivamente, com o sorrisão contido. Como você adora fazer. Poupando esforço. Poupando palavras. E sendo simples como tudo sempre deveria ser sempre. Tô te devendo o meu livro com as minhas histórias, com e sem você.
Na realidade, queria te dar um pequeno manual de instruções seu, que comecei a bolar, depois de te estudar por tanto tempo e reprovar em algumas matérias suas. Antes de qualquer coisa, milhões de desculpas pelos batons perdidos nesses teus dias comigo. Vi poucos e os poucos que vi, fiz durar menos ainda. Como se nem ao menos tivessem tido a oportunidade de serem vistos.
Culpa desse sorriso gostoso, que você não custava nada em mostrar. Elogiei, borrei, manchei, tirei, limpei. E no final de tudo cheguei a uma idiota conclusão comum que o mundo te fala todo santo dia. Você realmente fica linda de qualquer jeito. Mas eu falo isso de longe, com parcimônia, pra você entender o recado. Não me entenda cabeça erguida e não com nariz empinado. Tô te devendo batons, não sei se muitos, mas alguns.
Indo um pouco mais além, gostaria de lhe avisar, que realmente não me importo de que todo aquele carinho que apertávamos no nosso abraço tenha se tornado saudade. Pra ser sincero, eu até acho isso tudo bem normal. Só que a saudade ficou só de um lado do abraço, então, por favor, faça a gentileza de vir retirar o seu pedaço. É que quando o carinho começa a pesar aqui dentro do peito, ele vai bem aonde a gente não consegue carregar direito. Vai amassando devagar um coração. Se não estiver muito ocupada nos próximos dias, agradeceria se você retirasse a sua parcela, eu posso deixar numa caixinha aqui na minha portaria, caso você passe eu não esteja por aqui. Tô até te devendo saudade.
Saiba que mesmo você não gostando, sua altura é perfeita. Não tão alta quanto os meus sonhos e viagens, nem tão baixa quanto a sua autoestima que você insiste em reforçar, sem precisar. Cabe perfeitamente no meu abraço. E você continua abraçando o mundo como se fosse seu travesseiro.
Além do mais, já confundi restaurantes com bares, ruas com avenidas. Já imaginei que coquetéis eram festas, que aulas eram palestras. Que moral eu tenho de te julgar, se dessa vez você achou que o entusiasmo era paixão?
Tô te devendo um até logo.
Nunca soube lidar com adeus.
Até logo.
Então.

